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Pensamento analógico XVI - Sonho

No sonho, Brasília era bombardeada pelo Irã. Em questão de segundos, não havia Bolsonaro ou Mourão ou STF ou Rodrigo Maia ou Alcolumbre.

Um país sem governo. Um exército sem a menor condição de revidar o ataque ou enterrar os seus mortos.

Nas capitais, multidões assustadas. Os sinais de rádio, TV e de celular foram derrubados nas horas seguintes. Não havia mais internet.

Apenas telefones fixos funcionavam em alguns lugares. Só soubemos do segundo ataque quando associamos a queda da energia elétrica à destruição de Itaipú.

Deveríamos ir ao trabalho no dia seguinte? O que tínhamos para comer seria suficiente para quantos dias?

Parecia o primeiro dia do resto de nossas vidas. Mercados de bairro vendiam os estoques somando as contas em pequenas calculadoras.

Postos de gasolina recorriam a geradores de energia a diesel para fazer funcionar as bombas de combustíveis.

Hipermercados tentavam controlar as entradas e saídas para evitar a convulsão social ali mesmo. Havia geradores funcionando para garantir inclusive uma casquinha do Mc Donald`s.

Pela lógica dos ataques, a av. Paulista, em São Paulo foi evacuada. Mas na fila para pagar a compra, descobri que foi na Faria Lima. Nos outros estados, não sei.

Até o momento em que TV e rádio funcionaram, só sabíamos de Brasília. Meu carro tinha combustível. Mas não sabia muito bem para onde ir. Deveria ter ido para o trabalho?

As ruas estavam cheias. A polícia, a guarda municipal, o exército e o departamento de trânsito impediam que saíssemos da cidade.

- Voltem para suas casas! Ninguém pode sair da cidade!

Quando temos família no interior, sempre cogitamos uma fuga em caso de apocalipse zumbi. Mas essa possibilidade ainda não seria possível. Sabia que todos estavam bem, usamos o telefone fixo para saber.

Estávamos trancados em casa sem saber exatamente o que estava acontecendo. Da janela do meu quarto, vejo longe. Nosso prédio fica ao lado de uma reserva militar.

Helicópteros pousavam e decolavam várias vezes naquele dia. Não sei se estaríamos seguros ou se seríamos alvos fáceis. Mas, aos poucos, o caos ia se transformando em silêncio aterrador.

Era 14 de fevereiro de 2020. Tinha certeza que nada mais seria como antes. No dia seguinte, deveria ir para o trabalho?

Pode parecer distopia, mas, basicamente, voltaríamos a viver como nossos bisavós ou tataravós. Eles sobreviveram sem rádio, TV, internet e energia elétrica e não eram exatamente neandertais.

Temos, ao menos, carros à combustão, enquanto durarem os estoques de combustíveis.Painéis solares?

Retomaríamos a vida? Como seria? (*continua) [Pensamento analógico XVI, 15.01.2020]

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© Luiz Henrique Cunha - escritor e professor

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