.há pedra, há água, há rio
- Luiz Henrique F. Cunha
- 26 de out. de 2019
- 4 min de leitura
Silêncio. Tranque a porta. Desligue a música. É necessário silêncio. Seria importante fechar os olhos. Mas se todos fecharem os olhos, terei que falar. Prefiro escrever. Então, olhem apenas para este texto. Nada atrapalhe essa lei-tura.
Há muito tempo atrás, foi que aconteceu. Era no tempo em que a humanidade não conhecia a ideia de propriedade, não existiam cercas proibindo a passagem. A terra era de todos. Os frutos abundavam e as águas eram bebíveis. Toda sexta-feira era santa. Animais e homens pareciam ter aquela aura superior, capazes de ouvir e entender um ao outro, em silêncio.
Era num tempo em que não se escrevia. As palavras eram cravadas na alma. Assinavam com o olhar. Reverenciando o silêncio, que sempre dava vazão aos cantos dos pássaros. Esses seres voantes viam tudo de cima e pareciam selar o que se acordava sob o chão.
Sol de dia era vitamina para tudo e todos. Lua de noite era sonho, a indagação sobre o infinito onde ela estava pendurada. Homens e mulheres viviam. Só isso. O que poderia dar errado?
**
Era manhã, como hoje foi manhã. A umidade que envolvia parte da terra e dos homens, escondeu uma lágrima no rosto de alguém. Este ser havia sentido o que não sabia expressar, não existiam palavras para descrever - até hoje não saberia expressar. Talvez você entenda o que sentiu, quando souber o que ele fez. Saiu errante, no sentido oposto ao de todos os outros.
Andou dias, procurou algo por toda a parte, mas não encontrou. Então, não fazia sentido. A primeira angústia aconteceu, ele a nomeou assim. Estava incomodado pelo simples fato de existir. Procurou ouvir o canto dos pássaros, mas não havia mais silêncio dentro de si. Já não podia acreditar. Comia por comer, bebia por beber, andava por andar. Amava? Quem? Estava sozinho agora.
Não se reconhecia como mais um animal. Os animais passaram a representar perigo. Pareciam ameaças. E num encontro com um cervo, sem que pensasse muito, desferiu golpes com o galho que levava sempre em uma das mãos: matou. Esse encontro mortal foi chorado por todos, o silêncio propagara a notícia em toda a terra. Matar um cervo aliviou sua angústia. Mas o alívio logo passaria.
Com as mãos sujas com sangue prosseguiu sem saber para onde. Perdeu-se totalmente. Não lembrava mais como era antes. Os outros não mais lhe interessava.
Completou, sem que soubesse, uma volta ao mundo de então. Só percebeu quando avistou os outros homens. Eles continuavam a viver. Comiam para viver, bebiam para viver, andavam para viver. A vida parecia acender uma brasa no peito deles. Quis viver também. Mas não podia mais, o sangue daquele animal secou desde o seu rosto até os pés, qualquer luz que se acendesse em seu peito revelaria aos outros que foi um assassino. Pois os olhos dos homens viam, mesmo quando fechados.
Decidiu morrer. Seria melhor morrer. Buscou no horizonte a pedra mais alta. Agora sabia para onde marcharia. Não seria mais errante. Tinha um destino - palavra que este inventou. E foi.
**
Enquanto subia, olhava para o chão. Via cada partícula de vida se mover. A água que escorria entre as árvores, parecia murmurar-lhe algo. Não entendia. Prosseguia. Serpentes o surpreendiam, teve de correr algumas vezes, sem entender bem o porquê. Ia em direção ao cume de suas angústias, parecia estar prestes a encontrar enfim seu lugar no mundo. Quando finalmente chegou ao topo da pedra do ponto-mais-alto-da-própria-angústia, como nomeou no caminho, olhou para todos os lados. Deveria escolher o lugar onde deixaria de existir. Sentou-se pela última vez. Ao seu lado, na pedra, surgia água por uma pequena fresta. Passou a observá-la. Era constante, jamais se interrompia aquele vazamento insistente.
Deitou então seu rosto ali, fez suas lágrimas misturarem-se com aquela água. Levantou a cabeça e mirou o caminho daquelas águas. Ao longe, via o rio. Mas não podia acreditar que toda aquela imensidão de águas brotaria daquela pedra, da fenda minúscula de onde a água insistia em nascer. Se fosse verdade, suas lágrimas haviam de fazer chorar toda a terra porque seriam parte do grande rio. Talvez salgassem o mar.
Partilhara com o mundo uma parte do que sentiu e não pode nomear. Não a angústia que era sua. Mas aquilo que sentiu e não podia nomear. Angústia era sintoma. Era isso!
Neste instante, percebeu. Aquela água poderia limpá-lo do sangue animal que havia secado em seu corpo. Mas, certamente, espalharia esse sangue rio abaixo. Era necessário escolher. Nasceu a dúvida. E espalhou-se por todos os lugares onde o rio corria, subiu pelas raízes das plantas, os homens banharam-se nela.
Fez-se escuridão. O caminho para a pedra tornou-se inóspito. Ninguém ousaria subí-la. O silêncio que comunicava a paz entre os homens deu lugar às canções. Algumas fazem lembrar de como tudo era antes. Outras tantas, revelam que o mundo jamais voltará a ser como foi. Até os pássaros hoje cantam por cantar, presos por quem apreciava seu voo e se encantava com seu testemunho da vida dos homens.
Depois disso, só uma sexta-feira é santa. Àquela em que o caminho para a pedra foi reaberto. Lá, a água continua a jorrar limpa e todos os homens podem deixar as lágrimas e as mazelas de uma vida de dúvidas e angústias. Poucos sobem até lá. O caminho é estreito, terrivelmente belo. Não é fácil. Ah, e muitos não acreditam, pois a dúvida está por toda parte: no leito dos rios, nas raízes das plantas e nos homens, que ao se banharem, sem saber, inundaram-se nela...
@LuizHenriqueFCunha, sexta-santa 2014
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